Prémio Lens Culture 2009

vernaschi-05.jpgPortfolio vencedor da competição Lens Culture International Exposure Awards, o do italiano Marco Vernaschi sobre as consequências do tráfico de droga na Guiné-Bissau. O resultado é assaz perturbador, imagens cruas e de grande violência e pese embora a foto acima seja pouco explícita nesses termos, a legenda é contudo esclarecedora: trata-se dos homens que há poucas horas tinham perpretado o homicídio do ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira.

A primeira impressão que tive desta foto remeteu-me – estranhamente – para o universo da moda e da pop. Com efeito, nela parece inscrever-se alguma da codificação ligada à produção desse tipo de imagens e mesmo não se vislumbrando ou pressentindo quaisquer aparatos cénicos, o cenário poderia muito bem ser considerado parte de uma certa estética fashionizada, tal o sem número de produções que se socorrem deste tipo de lugares, ainda que se questione acerca do valor acrescentado que os mesmos podem trazer a uma produção desse tipo, sem ser o de marginalidade, de decadência, abandono, etc. Também uma certa disposição dos elementos do grupo, numa pose estilizada e sem emoções, parecem coadunar essa hipótese, aparentemente equívoca com o teor “normal” de uma reportagem documental. A imagem do durão, do gansgster, do criminoso, parece de tal modo ter-se intrometido na fórmula imagética ligada à música e à moda, que parecem contribuir para esbater as margens entre a saudável rebeldia e irreverência, e a estúpida violência e brutalidade. O gangsterismo e a cultura pop de braço dado, um bando de heróis ou uma turba de criminosos?

Adicionalmente, senti alguma perplexidade pela maneira insidiosa como dentro de mim se caucionou uma primeira impressão desta fotografia, ou seja, como é que através de uma fórmula aparentemente inócua e sedutora, esta imagem parece branquear a realidade que existe por detrás dela. Em face disto, será pertinente não apenas questionar de que forma é afectada a leitura de uma imagem, como ainda se dispomos de códigos que nos permitam interpretar e separar devidamente a imagem da realidade? De que modo a codificação inscrita num determinado universo imagético acaba por afectar a leitura de todas as outras imagens? Como é que se reconfiguram em nós os sentidos e significados, a partir daquilo que nos vai sendo conspícuamente mostrado e que – amiúde acríticamente – em nós vamos validando?


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Comments:

lion
October 28, 2009

O fotógrafo afirma usar uma " cinematic approach" que se deve sobretudo à estratégia de "criar laços" com os criminosos e assim, de certa forma, "sujar as mãos". Perdoo-lhe este mal menor, já que consegue chamar a atenção pública para esta odienda realidade.

joaoh
October 28, 2009

Não gostari de ir tanto no sentido da culpabilização do fotógrafo, mas talvez possa ser esse um dos entidos daquilo que escrevi. Mas não é por aí que desjaria que o texto fosse lido. É mais sobre o impacto que a imagem teve em mim.

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