Ramin Haerizadeh, Men of Allah

Sugestão do leitor Paulo Barbas, este trabalho de Ramin Haerizadeh – Men of Allah.  Lidando com aspectos ligados à identidade cultural e sexual, invoca e embebe motivos, padrões, lendas e mitos da tradição persa. O artista utiliza a fotografia (auto-retrato) e a composição digital, para criar um novo e fascinante quadro, pleno de crítica e subversão, social, religiosa e política, ao mesmo tempo incorporando traços da arte ocidental (cubismo), numa contínua e arrojada provocação.

Este trabalho parece tangenciar uma nova série de Augusto Alves da Silva intitulada “Book“, que pode ser vista na exposição “Sem Saída – Ensaio sobre o Optimismo“, presentemente exposta em Serralves. Ambos lidam abertamente com o sexo – mas não só – ainda que provavelmente por vias e estratégias diferentes. Neste trabalho, o autor contratou modelos femininos, sem experiência em fotografia, fotografando-as de vários ângulos, do erótico, ao clínico, passando pelo pornográfico(?). Como não era permitida a captação de imagens é sempre difícil descrevê-las, mas a tonalidade geral poderia ser a de um erótico “chic”, bem encenado e iluminado, consistente, até talvez demais, mas quiçá sublinhando a falta de inventividade que geralmente grassa por este tipo de imagem. Só o conjunto permite aferir a estranheza da situação, isto porque algumas das imagens poderiam servir propósitos “comerciais”, afinal de contas a razão última da existência das mesmas, pois se o erótico/pornográfico vende, a arte serve-se aqui dele para vender também, ainda que a clientes algo diferentes. Registe-se no entanto que o autor procura fugir à exploração inerente a este tipo de fotografia, através da partilha com as modelos das escolhas daquilo que iria ser exposto, bem como dos lucros das vendas.

Photography is a contest between a photographer and the presumptions of approximate and habitual seeing. The contest can be held anywhere…” Sirvo-me desta citação de John Szarkowski para referir que este trabalho se por um lado parece querer desmontar a fotografia erótica  e/ou pornográfica, através de uma atitude detalhada aos gestos, a pormenores, a partes do corpo, contudo existe nele alguma ambivalência, o casamento pós-modernista do “aquilo que há para ver não está aqui exposto” com o registo documental do “isto é a realidade” nunca é simples. No entanto essa “batalha” pode ocorrer em qualquer lado, como diz John Szarkowski, e aqui ocorre através do uso do corpo feminino, se por um lado se entra quase numa tentação do escrutínio milimétrico, só faltando mesmo uma lente a entrar por uma vagina adentro para que o retrato ficasse completo e esse seria o grande final desta série – o que há para ver não é acessível – por outro lado aquilo que parece estar em análise não são os fruidores do negócio do sexo, nem as/os que o proporcionam, mas sim o espectador e a sua expectativa de verdade e realidade. É ele que vai nú por aquele corredor-orgia-visual, embora às tantas mais pareça que um caralho pintado na parede – imagem com que aliás o autor  abre a série “IST”, louve-se a ousadia – poderia fazer as mesmas vezes. Ainda assim outras leituras podem ser possíveis, de que forma é que nos confrontamos publicamente com esta noção aberta de exposição sexual, quando a relação com este tipo de imagens está geralmente conotada com uma relação mais privada? Que preconceitos e esterótipos abrigamos em nós e que nos são despoletados por este visionamento?

Se estamos perante um trabalho meramente panfletário, não sobre o comércio do sexo, mas sobre a representação do mesmo nos media e dos meandros da recepção desse tipo de imagens, ou perante uma tentativa séria de reflexão sobre ambos os temas, é caso em aberto para discussão. Por outro lado, estamos dentro das fronteiras do documental, ou está isto já para lá do documental? O artista percepciona uma realidade sensível, ao mesmo tempo que ambiciona intuir uma outra que não é exprímivel, mas conduz isso a alguma ambição de verdade, até como critério de validade artistica? Ou é apenas mostrada a natureza relativa da mesma, ou seja, a sua relatividade sendo conferida por quem a vê, logo não universalizável, sancionando a idéia de que só as percepções são reais, logo verdadeiras, mas que essas existem individualmente? É visível nalguns autores o distanciamento do registo documental, quiçá por cansaço, ou por considerarem que o mesmo se encontra moribundo, sem interesse, incapaz de encurtar a distância entre real-verdade-veracidade, mas esta tentativa de “pós-fotografia” através da constante desmontagem reconfiguradora da realidade talvez procure conferir unidade ao todo, atitude que embora meritória, nem sempre parece conduzir a resultados inteiramente satisfatórios, contudo saúde-se a atitude de risco tomada nesta série. Esta retrospectiva veio abrir novas janelas sobre o trabalho do fotógrafo, reforçando a idéia de que existe nele um saudável desejo de provocação, de subversão, de incerteza, de ambiguidade, ainda que esteticamente se possa considerar o campeão nacional do banal, que contudo nos é servido com grandeza, o que provavelmente o transforma noutra coisa qualquer, menos banal.

Ainda a este respeito, do envolvimento e do uso da imagem sexual na fotografia, veja-se este trabalho, simples mas certeiro de Alec Soth.

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