Robert Voit, New Trees

Era bom que os espelhos reflectissem antes de nos devolverem as imagens
Jean Cocteau

Por vezes pareço simplificar quando afirmo gostar ou não desta ou daquela fotografia, sensação mais instintiva do que racional e totalmente subjectiva, a esse propósito relembro o trabalho “Antenas” de João Margalha que vi recentemente na Bienal de Vila Franca, sobre o qual tracei um certo desgosto, pois apesar de se tratar de uma proposta documental muito bem trabalhada técnicamente, não me cativou no plano artístico. Confesso que essa sensação é por vezes um pouco angustiante, gosto de mergulhar dentro de mim para perceber o que me “liga ou desliga” desta ou daquela fotografia, como afirma Celia Lury, a imagem fotográfica pode contribuir para novas configurações da percepção do ser-se pessoa, de autoconhecimento e de verdade pessoal. Esse é justamente um dos aspectos que mais me atrai ao olhar as fotografias, a possibilidade de espelho que as mesmas podem fornecer, reflectido nas percepções que de mim vou fazendo. Onde a angústia se move, é no tempo em que claramente não consigo não só identificar o que me atrai ou repugna numa dada fotografia, como na incapacidade de perceber o que essa incompreensão me diz sobre mim. Interessa-me sobretudo essa dualidade valorativa, pelo menos tanto ou por vezes até mais que a mensagem, quando existe, pois através da análise desse fluxo, descubro em mim hipóteses até aí desconhecidas ou inconscientes.

Mas esta faceta, de imagem que reflecte sobre imagem, teoria da representação pós-modernista, sendo uma dos rostos  interessantes e possíveis do “fotográfico” como aliás pode ser de qualquer outro objecto sobre o qual me projecte, não impede contudo que nalguns casos a falta de consciência impere e impeça a apreensão clara dos conteúdos propostos. Talvez desse modo se tenha imposto o light, o entertainment, o soap, a tele-novela e jornal, discursos que debitam imagens impensadas ou pensadas para distrair.
Mas qualquer reflexão sobre uma imagem, a qual já é uma imagem de uma imagem, reflecte apenas aquele que a produz, não a imagem da imagem, justamente aí creio que existe um bom potencial para o uso da fotografia como ferramenta de desenvolvimento pessoal.

Mas voltando ao tema, encontrei o trabalho de Robert Voit intitulado New Trees via Exposure Project em que, à semelhança do trabalho de João Margalha, é examinada também a estética agressiva e perturbadora das antenas de retransmissão dos telemóveis, sendo que esta série me agradou mais. O que é que isso significa? Que a fotografia de João Margalha é melhor ou pior que esta? Não, que ambas reflectem uma realidade que é interior em mim e que pode ter várias configurações, por um lado, a necessidade de classificar o mundo, agrada-não agrada, por outro lado, a reflexão de determinadas características salientes em mim, postas a nú por essa classificação. Sem correr o absurdo de fazer do leitor confidente ou psicólogo, transformando o blog em divã, ainda assim prefiro estas novas árvores às antenas

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