Ruínas da Representação

©jh – sem título, da série “capital reflex”

No artigo do blog Arte Photographica “Sobre Ruins of the Gilded Age”, é apresentada uma síntese de um ensaio do filósofo inglês Peter Osborne acerca do polémico trabalho de Edgar Martins para o NYTimes. Nele se visa de algum modo contextualizar e aprofundar o sentido desse trabalho, e que vem de algum modo confortar aquilo que o próprio artista emitiu em How can I see what I see, until I know what I know? e explicou sobre o seu processo de trabalho em Edgar Martins explains his creative process.

Todavia, o que parece ainda estar por perceber é a noção ética e quiçá estética – pois um estilo de um autor pode também ser um estilo de vida – que presidiu à afirmação de que as imagens não eram manipuladas, quando posteriormente se desvendou que efectivamente o eram. De tal modo se colocou em causa não apenas este projecto mas todo o restante corpo de trabalho, em que algum dele se baseava na permissa da não manipulação, que o fotógrafo se viu obrigado a explicar-se, quiçá percebendo e tentando controlar o impacto do acontecimento na qualidade da recepção da sua obra. É irrefutável que um determinado sector de opinião aproveitou para desqualificar e denegrir cegamente, actos que o corpo de trabalho de Edgar Martins efectivamente não merece, ainda que por vezes a argumentação que o sustenta se mostre mais adequada a propiciar deleites académicos, do que propriamente em interagir com todos os públicos, quiçá desse facto derivando a alienação de alguns deles. O paradoxo é que de algum modo esta arte que parece desejar assumir-se como universalista, aparenta contudo assumir um carácter excepcional, elitista e mais virado para o “millieu”, pois que se baseia em permissas que para um determinado público, exigente e conhecedor, já são por demais acessíveis, claras e conhecidas: as insuficiências e inadequações da fotografia, a falta de transparência do meio, etc, etc. Infelizmente, esse diálogo mais vasto parece só ter lugar através deste tipo de acontecimentos, diálogo que se foi inquinando, por um lado pelo jogo da maledicência e da inveja, e pelo outro, do afastamento do mesmo através de uma opaca justificação académica.

Embora o ensaio de Peter Osborne, que pode ser lido na integra no site de Edgar Martins, seja um contributo crítico e positivo para todo este debate, tentando propiciar uma visão sobre uma série de questões estéticas ligadas á produção da série, parece no entanto em dados momentos resvalar para um tom panegírico, mas mais que isso, tentando corrigir a nossa visão distorcida através da tentativa de imposição de uma verdade, senão leia-se “Supor que a elegância, a abstracção, e a cuidada tradução dos valores formais e a manipulação necessária existentes em muito do trabalho de Edgar Martins são de alguma forma qualidades inconvenientes para aplicar aos temas do seu trabalho actual seria um erro(…) estas imagens retratam mais do que uma realidade imediata. Elas representam uma condição que é social e empírica mas também metafísica, e que exige uma estética que jamais se poderá fundamentar somente na observação imediata, e escolhe assim abster-se da melancolia distópica comum em muita da arte de espaços vazios“.

Naquela que me parece a questão mais difícil de todo este processo e que enunciei no príncipio do texto, que tem que ver com o facto de se anunciarem as imagens como não manipuladas quando efectivamente o foram, Peter Osborne opta por lateralizar essa questão, antes sustentando a parte estética através
de Ranciére “o real tem de ser ficcionalizado para que possa ser pensado” e afirmando que “a palavra ficção tem conotações de um movimento falso empregue para a produção de efeitos reais (uma finta) e, ao mesmo tempo, a de uma coisa feita (as palavras “facto” e “fábrica” partilham a mesma raiz), algo real apesar de manufacturado. Martins tenta, nesta série, fazer evoluir uma “forma de visibilidade”, na qual a grandeza das imagens e das imagens que as acompanham – as de construções num equilíbrio precário, construídas pelo fotógrafo a partir dos detritos deixados no interior de edifícios vazios – fazem com que traga para primeiro plano a “qualidade de factura” do seu trabalho, a sua fictividade, e, nesse sentido, o fabrico das suas intervenções. Mas faz mais do que isso. Como se afirmou acima, estes espaços desabitados ou incompletos começam por aparecer como formas puras, sem qualquer conteúdo, tal como as abstracções económicas que as levaram a este estado. A ficção que é a factura revela a ficção que é o movimento falso, a finta, de Wall Street.” É a “grandeza” das imagens – falará do tamanho ou do quê concretamente – que sustenta a fabricação?

Parágrafo algo entusiástico, que revela uma visão possível, mas não deixa de ser egnimático que aquilo que parece ser um logro – a manipulação não enunciada das imagens – possa ser utilizado para justificar outro logro, o dos factores que despoletaram a crise económica. É quase como necessitássemos de ser enganados, sem saber que o estávamos a ser, para percebermos que efectivamente estávamos a ser enganados, confesso que é um pouco complexo e potencialmente ludibriante, mas em arte sabe-se que várias estratégias são possíveis. Não desejando pensar num logro intencional, o mesmo a existir parece não residir tanto na manipulação “circunscrita”, mas antes na sua negação e posterior descoberta. Todo este processo, talvez válido como estratégia artística, parece no entanto colar-se a essa outra teia de nebulosidade: a de que uma grande parte desta crise americana e mundial, se ficou a dever justamente à manipulação, que como é evidente nunca poderia ser claramente assumida, pois que o seu propósito era o de adquirir vantagens de forma enganosa. Uma vez que o fotógrafo se viu constrangido a assumir que efectivamente existia uma manipulação, foi a partir desse momento que permaneceu no ar a expectativa sobre as reais intenções por detrás desse acto, e é essa a incógnita que parece permanecer inexplicada. Quanto á legitimação da manipulação “per si”, haverá sempre prós e contras, num debate que não deixará de ser profusamente alimentado por todos os que nele estão interessados.

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