Verdade ou consequência? Parte I

©JH, “Política de Verdade”

“If you want reality take the bus.” – David LaChapelle

Está ainda na memória do meio fotográfico, o polémico ensaio fotográfico que Edgar Martins efectuou para O NY Times, que acabou por ser retirado do espaço virtual por alegada manipulação digital da imagem. De tudo o que se disse e escreveu, parece ressaltar a idéia que não existiu clareza quanto ao que cada uma das partes necessitaria deste negócio, ou seja, da parte do jornal, a segurança de que seriam cumpridas as normas da casa, sobretudo no que diz respeito à não manipulação das imagens; da parte do fotógrafo, a certeza de que seria aceite nas suas interpretações da realidade, de acordo com a sua visão artística.

A este respeito, algumas questões se vem levantando, muitas delas sem que uma resposta específica se possa desenhar em concreto. Por um lado, a necessidade de que o fotojornalismo encerre alguma forma de verdade, sobretudo quando se fala numa crise nesta área, não só derivada do estado da economia, acarretando para os media menos publicidade e tiragens, como também da cada vez menor apetência por trabalhos documentais de fundo (ou de pagar por eles), ou até mesmo, do cansaço provocado pelo excesso de imagens. Ou seja, parece estar sobre os ombros do fotojornalismo a responsabilidade de manter uma imagem de verdade nos media, ao mesmo tempo que vai sendo eleito como bode expiatório para a profunda crise de valores que a imprensa e restantes media acusam e que parece ser resultante de um conjunto de fatcores entre os quais avultam a natureza parcial da investigação jornalística, a subjugação a interesses políticos e económicos, a impreparação dos profissionais, isto apenas do lado da oferta, pois que evidentemente outras questões se levantarão do lado da procura. A um fotojornalista pedem-se imagens, quantas vezes com risco de vida, todavia duvida-se da veracidade das mesmas, como se fosse apenas a imagem um testemunho de validade, mas a grande questão que se coloca é se é a noção de verdade preconizada pelo fotojornalismo – e restante jornalismo – necessáriamente verdadeira? Que verdade é representada numa imagem? O poder da fotografia documental parece residir na capacidade para representar algo, sendo essa representação apenas o testemunho de alguém, torna-se automaticamente subjectiva, logo torna-se impossível falar em verdade, mas antes em veracidade, subjacente à visão relativa de quem viu e de também a de quem verá.

A proliferação do digital e da facilidade em fazer, tratar e alterar fotografias, provocou desde o início uma onda de desconfiança quanto à capacidade da imagem em manter a verdade no ar, mas creia-se ou não, isso assim se passa desde o advento do pós-modernismo, que  tentando recuperar alguma da inteligência socrática, o faz contra o menosprezo cartesiano, somando-lhe a angústia duvidosa e não a dúvida criadora. Tornar-nos-emos a todos em cépticos? Residirá a natureza da dúvida no estímulo ao pensamento crítico ou é antes uma justificação da inércia? A este respeito, vale a pena ler uma entrevista a Jorge Ribalta, que embora se inicie com um polémico testamento ‘Photography’s triumph as art means its complete defeat as document‘, não deixa de incluir reflexões pertinentes sobre o estado e a suposta crise da fotografia documental.

Assiste-se nos últimos tempos, sobretudo nos meios ligados ao academismo e aos que tentam criar a “agenda” no circuito fotográfico (escolas, galerias, museus, etc) a medidas de recuperação de algum do prestígio da fotografia, através da revalorização de determinado tipo de segmento fotográfico até agora algo menorizado – basta olhar os prémios  e os certames – segmento esse mais ligado ao “real”, ao íntimo, a uma fotografia pouco embelezada ou processada. Veremos quanto tempo durará este efeito, e em que medida contribuirá para aquilo que parece ser o seu objectivo, o de recuperar a fotografia como uma linguagem única, valiosa e oportuna, mas que ainda assim depende não apenas de um emissor, mas também de um receptor activo, pensante e de qualidade.

Na 2ª parte deste artigo, tentarei analisar mais de perto as implicações do caso Martins nesta temática.

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